Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

A despedida faz-se de pérolas.

Na Praia das Chocas - Carrusca - Nampula - Moçambique

 

 

A despedida faz-se de pérolas. 
 
Como se nunca partisses pela estrada
ou pelos outeiros da noite - assim te vejo,
dias a fio, sem que te reconheça.

Só assim, desta forma, consigo com que o
corpo responda a um grito dado antecipadamente,
muito por dentro, ináudivel.

Quando te largavas por aí, por
onde eu não via, não pensava sequer que
te pudessem pedir as mãos, que te dissessem que
hoje os pássaros saem de outro lugar que não
este.

O nosso sitio é este - aqui, onde as árvores
lavam as mãos do passado, onde nos perdemos,
tu        e eu
quando se tornam suaves as crostas dos dias
a irromper pelas mãos.

No nosso colo a brisa leve da tristeza de
quem não viaja ou de quem não parte. No cais,
ribombam cascos de ferro das cidades, e perduram
nas enseadas os vestígios dos corpos

os riscos de quem se perdeu.

Consigo que não esqueçam, aqui, por onde nós
viemos. Vou fazer com que oiçam o som que as
pálpebras fazem ao fechar, como se de um pequeno
murmurar se tratasse.

Uma cantiga.
Uma melodia.

As músicas ecoam pelas paredes, os quadros estão
tingidos de uma cor pérfida de abandono.

A casa é o que nunca foi - uma simples cárcere
de âmagos.

E as janelas fecham-se, as portas fecham-se,
os soalhos erguem-se e estalam. Chove. Por onde
os nossos pés caminham, ficam marcas de giz como
desenhos da nossa morte

- são inspirações de ar que restaram.

Ao perdê-las, fiz com que o mundo desse meia-volta,
fiz com que se lavasse e limpasse a humidade do pensamento,
sendo os olhos o oríficio por onde podíamos olhar

quando tudo era simples, quando os filmes
eram menos coloridos.

São como grupos de histórias, as nossas mãos.
.
Tendem a ficar firmes quando lhes tocamos, ou
simplesmente estendem-se pelo corpo e pelo sexo,
esperando que nos deitemos e adormeçamos

como se hoje existisse cansaço - vontade de esquecer.
Nunca mais se vêem pardais pelos pêlos estendidos
na estrada - os barcos partiram, as nossas mãos
adornaram a despedida.

O nosso gosto nunca foi este - o do a-deus. A religiosidade
nunca foi o nosso forte, como que se nos custasse a
engolir o peso que os outros deixam quando os vemos

de costas                  longe     olhando
para a frente

e nos despedimos deles.

 

Sérgio Xarepe
- "Em lugar das mãos o mundo."


publicado por mokala às 00:28
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