Terça-feira, 12 de Maio de 2009

As árvores

Este poema para lembrar todos os objecto da nossa infância e que ilustraram as nossas brincadeiras e sonhos à sombra dos cajueiros, mangueiras, casuarinas e muitas mais frondosas árvores da nossa infância.

 

AS ÁRVORES.

 

Eu espero, sim, que essas árvores cresçam. Adormeço com elas todas as noites, embalado pela sua sombra. Lembro-as de memória, sobre a relva verde. Lembro as suas folhas, caindo de noite. Mesmo as que ainda não vi, eu espero que cresçam, que me esperem, que me abriguem nesse dia em que mais precisarei delas, ouvindo o ruído do mar não muito longe. Tenho, a cada minuto, saudades dessas árvores.

 

Francisco José Viegas

 

Azagaia, Árvore, Sombra


 

 


Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.

Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece
se ilumina de repente

e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.

Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
- eram frequentes as mudanças ?
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.

Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a cabeça,
que a arremessava longe, trespassando a sombra

da árvore que se erguia no quintal.
trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,

começava a retrair-se e a afilar-se. Desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.

A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve

com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra órfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz

para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.

 

Luís Quintais

 

 

 


publicado por mokala às 17:14
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 1 seguidor

.pesquisar

 

.Novembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Othawene timpuanhia apaje...

. O que tenho de mar

. Que Mar é este.

. Maria sem vergonha - A mi...

. Até amanhã

. Ó minha Ilha de Moçambiqu...

. Nacala

. Cheiro de mato

. Na terra vermelha da min...

. mar que eu encontro de en...

.arquivos

. Novembro 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Fevereiro 2012

. Outubro 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

.as nossas fotos - Obrigada à Paulinha e à Dalila minhas companheiras de viagem que me autorizaram a usar aqui as fotos delas.BJKS

.links

SAPO Blogs

.subscrever feeds